Seu Danilo e Dona Marolina: genro e sogra que vivem literalmente do mar

Publicado em às 5:00.
Por Luciana Maximo

Dia 29 de junho é dia de São Pedro, padroeiro de Piúma e santo dos pescadores, dia dos profissionais que dedicam sua vida a se arriscar em alto mar, rios e lagos. Seu Danilo, escolhido pelo jornal para homenagear todos, por ser o mais velho de Piúma ainda a desenvolver o oficio, aos 80 anos e dona Marolina, por passar 76 anos catando conchas e mariscos e ter a família envolvida com a pesca e o mar

 

 

Seu Danilo Miranda Cardoso, 80 anos nasceu em Piúma e reside no bairro de Limão.  Passou toda a vida no mar enfrentando medos, angústias, saudades, perigos, fome, frio e também alegrias. É o pescador de mais idade ainda na ativa na cidade. Cheio de vitalidade, sai todos os dias, ainda de madrugada com seu caiaque para praticar o ofício que aprendeu com o pai ainda menino.

Com tantos anos no mar, seu Danilo viveu duras cenas, sofreu apuros, ficava meses no mar. Antigamente, recebia notícia da família ao se encontrar com outro pescador, quando o barco atracava no porto no Rio de Janeiro. A pesca não era moderna, tudo era bem mais complicado, “sofri muito”, diz ele.

Seu Danilo relatou que já trabalhou em grandes embarcações, com 35 botes pequenos espalhados em alto mar e já perdeu amigos em tragédias. “O mestre era carrancudo, deixava os botinhos em alto mar e voltava tarde da noite para nos resgatar. Passei muito apertado dentro do botinho com problemas de mau tempo. O mestre era muito bravo e arrogante; não ‘panhava’ a gente, só ‘panhava’ à noite, peguei grandes tempestades e muitas dificuldades. Desde que nasci eu conheço o mar”.

 

A luta também era na roça

 

Antes de pescar, a labuta era na roça, ainda com 10 anos, seu Danilo acompanhava o pai, dentro de uma cangalha, que usavam para ir buscar cana. “Levantava às 2h00 da madrugada, mamãe colocava um pano na cabeça, eu ia dentro da cangalha, buscar cana na roça. O trabalho na minha vida começou cedo”, relembrou o pescador.

Até hoje, toda a família de seu Danilo trabalha no mar ou na praia. O sustento que deu segurança aos cinco filhos e a mulher foi tirado das pedras, das conchas, das redes, tarrafas, anzóis, espinhais e puçás. Em meio a tantas lembranças de sofrimento, seu Danilo afirmou que é verdade, já ter pescado um cação de 309 quilos na Praia de Piúma, usando um espinhel. “Eu pesco ainda, o dia que não pesco fico doente. Pesco de anzol, de rede, comprei um caiaque e estou trabalhando. Tem um amigo que está aprontando um barco grande para gente trabalhar em alto mar”.

 

Tristezas da lida no mar

 

Quem saboreia uma Moqueca Capixaba em um restaurante ou mesmo um peroá não tem ideia do que passa o pescador diariamente. Muitas vezes chegam a ficar semanas sem banho. “Tinha dia que a gente pegava água escondido na cozinha para tomar um banho no pano, molhava a camisa e passava no corpo”. A alegria maior era quando avistava a terra, triste, era quando saia, o barco ia sumindo no mar e tudo ficava pra trás. A pesca melhorou muito hoje, a família liga três quatro vezes por dia. Eu saí daqui de barco para ir para o Abrólio, eu fui, deixei minha filha mais velha doente, aí passei um mês e dez dias lá, já estava no rio descarregando, um companheiro daqui que me falou que ela já tinha melhorado. Era difícil a comunicação”.

A fartura que tem hoje quando a embarcação sai não se compara há de 50 anos. Levava um pouco de sal, um pouquinho de açúcar no barco para fazer um café. “Na época era muito difícil. Hoje os pescadores levam 15 a 20 quilos de açúcar para o mar”.

A esposa, Nelzira dos Santos Cardoso, 71 anos, relembrou que passou muitos apuros. Quando via o tempo fechar, ficava com medo. Hoje ela ainda cata mariscos e os netos vendem. A filha Clenilza Cardoso Oliveira, 50 anos, cata mariscos desde aos 18 anos e limpa peixe para os frigoríficos. “Não tinha muito trabalho, parei de estudar para trabalhar. As minhas filhas vendiam depois que eu tirava. Hoje estou formando uma filha com dinheiro de sururu e os peixes que a gente limpa. Eu não quero que meus filhos passem o que passei. Estou toda cortada de sururu e levei muito tombo nas pedras dentro do mar”.

Atualmente a família cultiva sururu e quando não tem maré propícia para retirar das pedras, colhem na pequena produção próxima a Ilha do Gambá. Mas os tempos mudaram.  Agora, vendem aos restaurantes da cidade o marisco já embalado e pronto para o consumo a R$25.00 o quilo.

 

 DONA MAROLINA: 100 anos, 76 catando mariscos

Aos 10 anos de idade dona Marolina Mendes Ramos, 99 anos começou na lida, acompanhando os pais na lavoura. Aos 20 anos se casou com o pescador Clarindo dos Santos e deixou a localidade de Boa Vista, zona rural de Anchieta com destino Piúma.

Na Cidade das Conchas trabalhou em diversos serviços, mas foi o mar que a encantou.  E foi nele, que durante 76 anos se dedicou a catar conchas na areia e mariscos nas pedras. Caiu muitas vezes, feriu as pernas e as mãos, se cortou nas facas limpando peixe e camarão, exercícios comuns diários das esposas dos pescadores.

Quando não catava mariscos e conchas, carregava lata d’ água na cabeça, das cacimbas do Scherrer às casas dos mais favorecidos economicamente, onde ganhava algum trocado.

Dona Marolina, que completa 100 anos no dia 23 de julho, está acamada, mas com uma memória lúcida, ela conversou com a Reportagem no leito de sua cama e contou um pouco da vida dura que viveu, mas a felicidade de ter encaminhado todos os sete filhos a uma vida honesta.

A família de dona Marolina vive literalmente do mar. O marido trabalhou a vida toda jogando rede, tarrafa, anzol e o puçá. As cinco filhas, exceto Nelzeli dos Santos, foram marisqueiras, todas limparam peixes, descascaram camarão ou venderam pelas ruas de Piúma o sururu no prato. Ela tem os cinco genros pescadores, 19 netos, 25 bisnetos e sete tataranetos e mais dois a caminho. A história é digna de novela.

Já teve dias que não tinha o que comer, em outros, fartura na mesa. Dona Marolina viveu com pouco em uma casa simples de telha, mas fez grandes amizades, como por exemplo, Dona Carmem Muniz, referência maior no artesanato de Piúma. Com a reportagem ela chorou ao se lembrar de trechos da sua história, disse que no meio da saudade, a dor de se lembrar das dificuldades, dos desafios e da pobreza. A felicidade de ter visto tanta coisa bonita sair do mar, feitas pelas mãos delas e dos artesãos da cidade, a satisfação de viver em Piúma e ser amada pela família que cuida dela como um bibelô.

Sorridente e chorosa, as vésperas de completar um centenário, Dona Marolina, hoje, precisa de uma cadeira de rodas para poder deixar o quarto e contemplar o sol e o mar. Está fraquinha e sem forças para caminhar.

Toda vez que Clarindo ia para mar dona Marolina ficava com o coração apertado. “Deus me livre, ele saia para o mar e eu ficava orando pedindo a todos os santos para protege-lo”.

Contou dona Marolina que trabalhava para a mãe do subtenente Paulo Cola e ele era bem pequeno. “Eu saía para catar conchas e ele batia atrás, ia para onde eu estava, eu olhava para trás estava àquela criança praia afora, gritando, gritando, Lina, Lina, Lina. Fui catadeira de concha toda vida”.

 

Colares com Dona Carmem

 

Amigas, tanto da praia como na arte, dona Marolina contou que foi muito amiga de Dona Carmem Muniz. “Dona Carmem era minha amiga, ela me pagava para fazer colar para ela, e fazia comigo. Ela de uma família muito boa”. Dona Marolina conta que faz questão de esquecer alguns episódios de sua vida.  “Eu passei muita necessidade, muita fome, carreguei muita lata d’ água na cabeça, para Carmen e para outras pessoas em Piúma. Eles pagavam uma mixaria. Do lado de cá não tinha água. Travessava em um pontilhão com ‘três pau’. Lavei muita roupa pra para os hotéis. Às vezes a gente sentava na beira da cacimba para esperar a água brotar. Tinha umas 20 cacimbas, nós ia tudo pra lá pegar água. Eu tenho saudades e não tenho”. Declarando amor a Piúma, dona Marolina encerrou a conversa, dizendo que gostaria muito de catar conchas de novo. “Se eu tivesse força ia catar conchas na praia”.

 

 

 

Roda dos Malandros – ponto de encontro

Atualmente a Praça Alcides Abrahão é deles, dos pescadores de Piúma. Lá um pequeno cais foi construído onde as embarcações atracam depois de um dia duro no mar. Lá também foi construído um espaço exclusivo e personalizado com mesas e banquinhos a eles que nas horas vagas passam o tempo jogando baralho, dominó e outros jogos, a Roda dos Malandros – é o ponto de encontro.

A Reportagem foi lá conversar com os pescadores, que não quiseram perder a concentração do jogo para dar entrevista. Cerca de 20 a 30 profissionais, entre aposentados e na ativa são vistos diariamente sentados brincando. “Já fui pescador, agora to aposentado, eu gosto de vir aqui”, disse Ronaldo Ávila, 77 anos.

 

Foto: Roda dos Malandros / Luciana Maximo

Legenda: Todos os dias os pescadores se encontram no cais para jogar uma boa partida de baralho, dominó ou xadrez.

 

Dia do Pescador

 

O Dia do Pescador é comemorado no dia 29 de junho. Pescador é aquele sujeito que conhece a natureza, entende o mar, sabe olhar para a lua e ver a maré que vem, quando o dia é bom, traz alimento para a família e ainda garante o sustento da casa com o que consegue vender de peixes.

Também existem os pescadores que pescam por esporte ou lazer. O importante é que todos respeitem os rios, lagos e mares, e todos os peixes que os habitam.

 

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